quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Descartes e a redescoberta do espírito

Descartes e a redescoberta do espírito

   Nascido em 31 de março de 1596 na cidade francesa La Haye, René Descartes foi filósofo, matemático e físico, e suas contribuições compreendem também os campos da astronomia, psicologia e anatomia. Deu início a sua filosofia enquanto servia ao exército na Guerra dos Trinta Anos, em novembro de 1619, quando se encontrou em um quarto bloqueado pela neve, na Alemanha.
     Iniciado nas letras desde a infância, acreditava que encontraria sábios e pessoas esclarecidas na universidade, mas, segundo ele, encontrou apenas mais dúvidas e erros. Seu objetivo de vida foi distinguir o conhecimento verdadeiro do falso, eliminando a confiança que tinha nas ciências e opiniões para testá-las uma a uma e ajustá-las ao nível da razão. Além disso, Descartes tinha a difícil missão de refutar o pensamento materialista proposto pela nova ciência natural, provando racionalmente a existência de Deus e da alma humana. Para tal tarefa, ele precisava retirar as pedras do passado, desconsiderando todo o conhecimento da humanidade até ali, recomeçando do zero. E foi o que fez.
     Através de pensamentos lógicos, o filósofo francês compreendeu que o homem é um ser cuja natureza consiste no pensar, que para ser não precisa de lugar algum ou coisa material. Assim conclui que a alma (essência pela qual ele é o que é) é distinta do corpo e que de modo algum está sujeita a morrer com ele. Essa separação entre alma/espírito e corpo (com o espírito sendo a propriedade primária e o corpo a secundária) é conhecida como dualidade cartesiana, teoria que "devolveu" o espírito ao homem e o retirou da condição de "mero animal pensante".
     Porém, o problema ainda não havia sido resolvido: restava provar a existência de Deus, e para isso, se valeu de fundamentos racionalistas. Ocorreu a ele que se conseguia imaginar um ser infinitamente perfeito, cujas perfeições ele mesmo não possuía (por ser imperfeito) e como uma causa não pode gerar um efeito mais perfeito que ela mesma, logo essa ideia de um ser perfeito fora colocada em seu espírito por uma natureza verdadeiramente perfeita: Deus.
     Então percebeu que imperfeições como dúvida e tristeza não existiriam em Deus, pois ele mesmo, um ser imperfeito, gostaria de não tê-las. Assim, chegou à conclusão de que o motivo que leva muitas pessoas a não acreditarem na existência de Deus e de seu próprio espírito é o fato de nunca se elevarem para além do que é sensível, e conclui que elas "tentam ouvir sons utilizando-se de seus olhos".
     A importância de René Descartes para o pensamento humano é inestimável, pois surgiu com seu pensamento durante um período em que a Filosofia mostrava-se cansada, rompeu com a tradição e acabou por criar uma nova escola filosófica, um novo pensar. Sendo assim, é reverenciado como o pai da Filosofia Moderna.
     O filósofo faleceu por ter contraído pneumonia, poucos dias antes de completar 54 anos. Muitos acreditavam que a Igreja o canonizaria por ter provado logicamente a existência de Deus, e alguns peregrinos levaram partes de seu corpo para guardar como relíquias. O restante foi sepultado na catedral de St. Germain de Pres, em Paris. Mas como ele próprio dizia: o corpo perece, o espírito vive. Descartes vive.

(Postado em 13/11/2013 - Nicolas Peixoto).

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Meu caixão

Meu caixão

Em gélida arca retangular
junto cinzas, ossos e dores
enterro aqui falsos amores
estrelas observo, uma a uma a contar.

Eis que uma centelha de vida,
desavisada, no caixão inda brilha
Na face do crânio que jaz sorrindo
abarca a morte e seu funesto destino!

Apodreci num caixão modesto
Onde não cabem nem Musas nem Mundo
lar eterno dos meus restos
sepultura do meu sono profundo!

Postado em 28/06/2013 (escrito na madrugada do dia 10/05/2013. Ler "O caixão fantástico", de Augusto dos Anjos). Nicolas Peixoto.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Ideia em ação

Ideia em ação

(um esboço filosófico)


     Dentro deste mundo há diversos outros mundos. E ainda, dentro deles, infinitos mundinhos colossais. Eu sou um mundinho colossal. 1,83m, 70kg, Não sou medido por isso. Aliás, nem medido sou. Sou infinito, um infinito sem limites, gradativo, esperando o despertar.
     Cada pensamento não é só pensamento. É vida, é pulso, o rio em ação. É a prova de que o corpo é um mediador - eu não sou corpo, ele me serve e devo cuidar dele. Mas eu sou pensamento, a centelha infinita de pensamentos improváveis que nem minha consciência ainda sabe da existência. Porém, sabe que é capaz. A ideia é perfeita, mas a nossa ideia, diferentemente da de Deus, não cria. Ela imagina, exerce; coloca-nos em contato com proposições e, finalmente, com a ação prática. 
     Eu quero ser uma ideia em ação.

Postado em 27/05/2013. Nicolas Peixoto.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

O Homem e a Sombra

O Homem e a Sombra

     Eu costumava andar na sombra. Na verdade, ela que costumava andar comigo. No início, eu tinha medo.  Depois, percebi que ela não era tão ameaçadora. Virei amigo da sombra. Ela me envolvia. Enquanto eu olhava para as luzes, sem alcançar nenhuma delas, a sombra me afagava. E em seus carinhos, acabei me apaixonando por aquela penumbra. Quer dizer, ela não era luz, mas e daí? Nenhuma luz jamais me envolveu, e aquela sombra ali, cuidando de mim, tratando dos meus anseios. E ainda dizia que eu também era bom para ela. Era um amor recíproco. Passei dias, noites, eras mentais sendo escondido, tragado por aquela sombra envolvente que dizia me amar. Um dia, percebi uma claridade súbita. Resolvi abrir os olhos: estava nu, vulnerável. Abandonado. O sol queimava minhas costas, minha face. A sombra havia me deixado. Ela, que outrora agarrava-se em mim, que me ensinou a amá-la, foi-se sem aviso algum. Fui deixado.

Postado em 20/05/2013. Nicolas Peixoto.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Carlos

Carlos

     Essa é uma história sobre Carlos. Carlos da Silva Barbosa, funcionário do setor financeiro no Edifício Fluminense, no centro da cidade do Rio. Como não há nada de excepcional em sua vida linear, não tenho outro caminho senão ater-me a ela.
     Carlos tem trinta e oito anos, e há doze trabalha no mesmo endereço. Acorda às cinco e meia da manhã, toma o seu banho (sem o qual não desperta), prepara seu café amargo e deixa sua casa com a esperança de que o novo dia lhe traga alguma surpresa. Raramente lhe traz.
     "Bom dia, seu Osvaldo!", vai Carlos em direção ao elevador. 33º andar. Abre-e-fecha de porta, muitos "bons dias". Sua mesa está impecavelmente organizada, como de costume. Entre o processo mecânico que compreende sua função e as piadinhas dos "colegas de trabalho", há um espaço reprimido para uma angústia crescente. É verdade que ela começou inofensiva, mas agora ganhou alguma significância. Como uma mancha de café num documento oficial, ela vai turvando suas letras, seu papel, sua assinatura. Esperar até as dezoito horas para poder ir para casa parece um tormento. E tem o trânsito. Naquele dia, após um longo tempo esperando o sinal abrir, Carlos decidiu que precisava mover-se. Mas como?
     O trabalho paga suas contas, o trabalho o levou até ali: um homem solteiro, sem filhos, casa grande e confortável, carro novo na garagem. Tinha medo dos frutos de uma iminente atitude rebelde. Mas pensou que não tinha mais volta: já havia vislumbrado um futuro idealizado através do espelho da imaginação (ou seria do desespero?).
     A solução estava clara: venderia a casa (que no fundo fazia-o sentir-se ainda mais solitário) e venderia o carro também (nem é tão necessário, e ainda polui o meio-ambiente). Venderia, venderia; vender, vender. Tudo resolvido. Moraria (sempre no futuro do pretérito) num bairro distante, numa casa pequena. Lá poderia trabalhar como cuidador de cães, sua verdadeira paixão. Planos... muitos deles não saem do papel.
     Faz dois meses desde que Carlos teve aquela iluminação ascensional. Ganhou uma promoção. Aparentemente, o dinheiro consegue sarar angústias. Mas não consegue fazê-lo a longo prazo, e no segundo mês Carlos estava ainda mais infeliz com sua inércia.
     O despertador toca; são cinco e meia da madrugada. Carlos o desliga, e fica deitado de olhos abertos. Tenta levantar-se, mas sente dor nos pulmões. Deita-se novamente. Seu médico já havia proibido o cigarro. Lembra-se dos cachorros e dá um leve sorriso. Desliga o celular, ajeita-se na cama e volta a dormir.

16/05/2013. Nicolas Peixoto.

sábado, 20 de abril de 2013

Das deficiências do corpo

Das deficiências do corpo

     O tempo é coisa engraçada: às vezes age em nosso favor. Mas esqueçamo-lo por ora. Há dias quero escrever sobre esse sentimento de autodestruição que me aflige: o mal-estar advindo de um corpo físico, o corpo humano. Logo, o meu corpo também. Antes, deixo claro que aqui, neste espaço, não preciso ser "bondoso", muito menos medir palavras. O pensamento aqui é cru. Ok, vamos. O corpo humano é uma caixa de mal-estares, uma tremenda bomba-relógio cujo tempo restante ninguém vê. Uma observação: falo do corpo humano porque, em geral, quem o possui goza de uma mente sã, e logo, da razão. Por isso não cito aqui os demais animais: estes sentem dores, mas não podem pensar sobre elas. Esse privilégio é nosso: os idiotas que pensam estar sobre todas as coisas.

Mente sã num corpo não tão são

     Pois então, parto aqui do ponto de vista cartesiano: nós, seres humanos, somos duais; o espírito é a primeira propriedade e o corpo, a segunda. Acima do corpo há a razão; que mesmo disputando com tantos instintos ainda é capaz de dar a palavra final. Porém, essa palavra final não é dada sem dificuldades. Até que o pensamento "suba" a essa faculdade supra-sensorial, ele percorre um caminho tortuoso: as mazelas físicas. Dores, deficiências e doenças são obstáculos para um veredicto racional: dificilmente alguém sofrendo fortes dores emitirá um discurso racional, e isso é natural. Natural porque também somos compostos da segunda propriedade, o corpo. Carregamos esse peso limitador, que inclusive media uma percepção talvez não tão necessária "estímulo recebido - reação do corpo - síntese racionalizada". O corpo é "bom" porque não o escolhemos, e nem conhecemos algo melhor. Um corpo são não é garantia de uma mente sã; imagine então um corpo enfermo.

Da bomba-relógio

     Como em uma relação dialética, nascemos com a semente da nossa própria destruição. O corpo é uma instituição fadada ao fracasso: talvez a minha única certeza aqui. Um recém-nascido desde já precisa vestir-se de precauções para sobreviver neste mundo - apenas para continuar lutando na tentativa de manter esta existência. Com o crescimento desse ser humano, crescem também os gérmens das enfermidades, as doenças capazes de acabar com a vida (diabetes, hipertensão e tantas outras que nem imagino). Alguém aí pode dizer que há maneiras tanto preventivas quanto de tratamento para estas mazelas. Mas se temos de nos prevenir não é isto já uma prova da mediocridade do corpo?

Angústia

     Somos impotentes quanto a esses fatores. Buscamos sempre uma qualidade de vida (utópica), mas essa melhora é sempre temporária. O que nos resta é a angústia de sabermos as nossas limitações (diferente do seu cão, por exemplo) e talvez, para alguns, buscar uma tentativa de superação.

*** Anima vincit corporem ***

20/04/2013. Nicolas Peixoto.


sábado, 13 de abril de 2013

O vício mórbido

O vício mórbido

     Tenho um vício mórbido, mórbido porque é de morte mesmo. Vícios fazem mal, este o faz em dobro: sou viciado em pensar na minha morte. Em vez de viver e sorrir, aproveitar o meu tempo fazendo algo bom, eu o perco com sonhos improdutivos com a morte. Se não tenho muito o que fazer, meus olhos focam o nada, e lá estou eu dançando com Ela. Cada vez é uma música diferente, salvo as minhas favoritas: gosto de repeti-las. Quando estou no ônibus, penso "será que vai bater?" e assim sofro o acidente; morri. Atravessando uma rua: "e se algum carro vier na contramão?"; morri. Em um assalto: "será que o cara vai atirar em mim?"; assim morro também. Quando viajei de avião, uma vez no céu,  temi a iminente queda; iminente na minha imaginação, pois não caímos. Não queria dizer isso, mas acho que senti uma ponta de desapontamento.
     Bem, mas que fique claro que não imagino isso pela tragédia somente, não não. Na verdade, tenho um sonho maior: morrer em prol do próximo. Juro que é verdade. Penso que poderia salvar uma criança de um atropelamento, ou uma mulher dum assalto, ou protegendo alguém com meus braços. Tantas maneiras, um só fechamento: eu morto, a pessoa grata com a ação daquele desconhecido; virei herói. Alguém aí poderia dizer que é egoísmo meu, mas terei de discordar. Já que todo mundo um dia morre, por que não posso ao menos escolher de que forma morrerei?
     Confesso que tenho um grande medo: o de ter uma morte inútil; uma morte sem sal. Por exemplo, ser atropelado por não esperar o sinal fechar, ou reagir a um assalto cujo alvo sou eu apenas. Mas o que mais temo é o desejo de muitos: morrer dormindo. Mas que tragédia! Morrer sem prelúdio, sem emoção, simplesmente parar de funcionar. Não quero isso para mim!
     Agora, não sou tão fã de mortes lentas, com muitas dores, mas há modalidades no mínimo interessantes. Quer exemplos? Bem, ficar internado, no "morre-não-morre" (mas que resultará de fato n'Ela!). As pessoas te visitando, o som dos aparelhos, a comoção, a expectativa... Por falar em expectativa, eu tenho gastrite, disseram-me que se eu não me cuidar...
     Minha psicóloga me chama de pessimista. De novo, discordo! A morte é a coroação da vida, então valorizando a minha morte, faço valer toda a minha existência! É isso! A maluca não enxerga. Já está meio velha, aposto que morrerá dormindo, coitada. Nem ela, nem minha família, nem meus amigos gostam de conversar comigo sobre morte; "você ainda é jovem, cara!" eles dizem, ao que respondo "e uma bala perdida? E um incêndio, ou afogamento?". Depois, ninguém mais fala nada. Sou obrigado a escrever apenas. Escrevo no papel, que é uma árvore morta!
     Falei sobre afogamento, lembrei-me do mar. Quando vou à praia, costumo ficar na beirada, pois não sei nadar. Fico lá durante alguns minutos iniciais, e logo estou eu flertando com a morte. A praia tem salva-vidas; eu não ficaria esquecido.
     Eu não penso só na minha morte: também penso em mim morto. O sepultamento seria um barato: a chuva, o céu nublado, os familiares (nem todos gostam assim de mim, mas iriam pela formalidade), os amigos próximos... Pedi ao meu irmão que colocasse determinada música, para dar aquele tom épico ao meu funeral. E é claro, gostaria de assistir a este, ver quem chora chorando e quem chora fingindo. Ver o remorso de uns, a compaixão de outros e o agradecimento estampado nos rostos dos mais íntimos... Hmmm... Melhor nem pensar!
     O mais interessante é que há quem nem imagine que me sinto assim, atraído por Ela. Por trás do "bom dia" e do sorriso, há um "pode ser meu último...!". Não sou epicurista, mas tento aproveitar o meu presente do meu jeito: tiro o carpe diem, coloco o laudate mortem - esse é o mote da minha filosofia; pois só podemos louvar a morte em vida.
     Enquanto desenvolvia a minha filosofia - laudate mortem! - fui acometido por algo mais mortal que a própria morte: o amor. Amei uma menina, desejei-a mais que a morte; até que ela se mostrou uma traidora, apunhalando o meu coração, mas conservando-me vivo, para sofrer mais. E eis que ainda sofro, e esse sofrimento rouba-me tempo de vida. Mais uma vez a minha amiga me resgata: "quero ver a cara dela quando eu morrer, em breve!".
     Gosto de sentir minha respiração; vai e volta. Olho os pássaros, eles não sabem do destino deles, acho isso muito triste. Por isso, meus amigos, não se enganem, eu amo a vida. Amo a minha vida, pois só morre quem ainda vive. Ponto.
     Laudate mortem!

13/04/2013. Nicolas Peixoto.